Juntamente com a Família Real, que foi entregue às terras brasileiras pelas naus portuguesas em 1808, a imprensa régia surgiu no Brasil. E ontem, 10 de setembro, o primeiro jornal impresso no nosso país completou seu 205º aniversário. Com a direção do Frei Tibúrcio José da Rocha, a Gazeta do Rio de Janeiro circulava semanalmente e seu conteúdo era voltado aos interesses da Coroa e da corte. No geral, as notícias abordavam eventos reais, festas e novidades sobre casamentos de príncipes da Europa.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Quinze anos de cozinha da redação
A professora Socorro Veloso conta sua carreira profissional, como
sofreu a tentativa de suborno e o que acha sobre a mídia ninja.
Por Matheus Soares
Fotos: Natália Noronha e Rayanne Mainara
Com a fala arrastada,
pronunciando claramente o som do s, a professora Maria do Socorro Veloso
comenta os principais momentos do jornalismo com os mais de quarenta alunos de
comunicação social que estão matriculados na disciplina “Linguagem Jornalística”,
uma das cinco matérias que ela leciona na Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), em Natal.
Em pé, os óculos na ponta do
nariz, ela relembra coberturas e reportagens com o intuito de construir um
senso crítico em seus alunos, além de ensiná-los conhecimentos básicos na área
jornalística, como os diversos gêneros de texto e as diferenças em cada
editoria.
Suas aulas são produto do amor
aos jornais, que nutre desde pequena, e dos 15 anos dentro de redações, maior
parte desse tempo assumindo o papel de editora. “Minha formação é na cozinha da
redação, nos bastidores. Trabalhando na orientação do repórter e pensando numa
página graficamente bem concebida”, afirma a professora.
Socorro iniciou a carreira em
1983, quando entrou para Universidade Federal do Para (UFPA), sua terra natal,
para cursar jornalismo. Naquele tempo, segundo ela, os jornalistas usavam
máquinas de escrever e ainda fumavam dentro das redações, as quais eram sujas,
esfumaçadas e barulhentas – devido ao Telex, equipamento que recebia as
informações das agências de notícias.
O primeiro trabalho na área foi a
participação em um jornal semanal de uma grande universidade privada do estado,
chamado Comunicado. Em 1986, aos 22 anos, cobre o debate entre os candidatos ao
governo do Pará como teste para ingressar no Diário do Pará. “A chefe de
reportagem leu meu texto, e eu estava um pouco tensa, porque sabia que ela era
uma pessoal difícil de lidar. Você começa amanhã, ela disse, e eu lembro a
minha imensa felicidade”, comenta Socorro. No periódico, trabalhou como
repórter de cidades e de política, tendo, logo após, sua primeira experiência
como editora, sendo depois rebaixada novamente a repórter por aderir à greve
dos jornalistas que aconteceu em 1987.
Socorro relembra que na época “estava
com muito gás, com desejo de trabalhar e fazer diferente”, e assim foi chamada
para o que ela chama de “o primeiro grande desafio” de sua vida: fazer parte da
equipe que criaria o primeiro jornal diário do Amapá. “Aos 23 anos, fui editora
chefe do Jornal do Dia, que era feito de forma artesanal, mas foi onde tive a
primeira oportunidade de comandar uma redação”.
Após um ano, ela voltou ao Pará,
onde trabalhou no Jornal Liberal, maior veículo impresso do estado, como
redatora de cidades e depois como chefe de reportagem. No periódio, trabalhou
por sete anos, nos quais cinco deles fazia plantão aos domingos, independente
das festas e comemorações familiares. “Folgava o sábado e trabalhava no outro
dia. Chegava às 13h30 e saia às 19h”, conta a professora.
Foi nesse jornal que ela passou
dois momentos marcantes de sua carreira. O primeiro deles foi a cobertura da
queda do avião 254 da Varig, em 1989, no estado do Mato Grosso, que necessitou
o fretamento de um avião para o deslocamento da equipe de reportagem até o
local do acidente. “Alguns passageiros do voo eram conhecidos em Belém. Foi uma
cobertura sofrida, de grande intensidade e comoção”, relembra Socorro.
Outro acontecimento foi a
tentativa de suborno pela diretora do sindicato de hotéis e restaurantes do
Pará. “Uma sorveteria havia sido denunciada pela presença de coliformes fecais
nos sorvetes. Nós tínhamos a história. Recebi uma ligação na tentativa de
oferecer a propina para que eu, como chefe de reportagem, não desse a matéria.
Fiquei bastante indignada, ofendida. Desliguei nervosa o telefone. A matéria
saiu”, desabafa a professora.
Já na década de noventa, Socorro
fez parte da assessoria de imprensa da Vale do Rio Doce, ainda empresa estatal.
Em 1995, com 30 anos, ela decidiu voltar aos estudos. “Foi uma decisão que me
salvou profissionalmente. Sentia algumas coisas se petrificando dentro de mim,
então decidi fazer a pós graduação em Teorias da Comunicação na Universidade
Federal do Ceará (UFC)”, comenta a professora. No entanto, mesmo estudando ela
não largou a redação, trabalhando como redatora e como sub-editora de nacional
e internacional no jornal cearense O Povo, em 1996. “Foi uma das melhores
redações que eu já passei. Um jornal que valoriza a qualidade da informação, e
os repórteres e editores são desafiados a fazer o melhor”, elogia Socorro.
Um ano depois, ela partiu para
Campinas, onde fez seu mestrado em multimeios pela Unicamp. Sem bolsa auxílio,
ela teve que buscar trabalho no jornal centenário Diário do Povo, trabalhando
como editora de assuntos internacionais.
Terminando o mestrado, em 2000,
ela segue “outra aventura”: ser professora. “Eu tinha um sonho de ser
professora universitária e recebi um convite para trabalhar em uma instituição
em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo”. Dessa forma, Socorro
encerrou suas atividades nas redações e partiu para a vida acadêmica.
Entre 2004 e 2008, foi orientada
pelo professor Laurindo Leal Filho na produção da tese do seu doutorado pela
Universidade de São Paulo (USP), que abordou o jornal alternativo paraense
Pessoal.
Ainda no ano de 2008, Socorro
veio até Natal para participar do concurso para professor de jornalismo da
UFRN. Dentre os seis candidatos, ela foi chamada. “No dia 25 de julho tomei
posse. E estou muito feliz aqui, muito a vontade”, declara ela.
"Estou muito feliz aqui, muito a vontade", comenta Socorro, professora de jornalismo há cinco anos na UFRN. |
A rotina da universidade é fonte
de contentamento para a professora, que aprende a cada dia com seus colegas de
profissão e com as pesquisas que produz. Seus alunos, ela os chamam de
entusiasmados e diz que constrói uma relação prazerosa com eles. “Conversar com
meus alunos em sala de aula e refazer os passos da minha vida tem um efeito
motivacional tremendo sobre mim. Recupero elementos que ficaram no passado e
vejo que fiz algumas coisas bacanas”.
Longe das redações, ela não
esconde sua saudade dos tempos de jornal. “Nada me deu tanta satisfação pessoal
quanto os anos que passei em redação, por isso que eu venho com tanta motivação
para sala de aula”, ela comenta. Questionada se voltaria às redações, ela
responde rapidamente: “Voltaria correndo! Mas não posso, tenho dedicação
exclusiva à UFRN”.
Há treze anos como docente, ela
acompanha o desenvolvimento das mídias contra hegemônicas e as novas formas de
se fazer jornalismo. “Há vários caminhos no jornalismo, não vejo como agouro.
Sou extremamente fã do mídia ninja, por exemplo, uma narrativa nova. Mas acho
que ela não acaba com o jornalismo. As redações estarão sempre se reinventando,
e precisando de profissionais”, declara.
Sobre o declínio do impresso, ela
acredita que os jornais passarão por uma grande transformação, mudando sua
periodicidade e se tornando mais especializados, mas não desaparecerão. Ela
ainda aponta seu incômodo com a falta de opinião clara dos periódicos no
mercado brasileiro, já que os títulos nacionais assumem um posicionamento nas
suas notícias e não o explicita no seu editorial. “Eu quero ler jornais que
ajudem a construir minha visão de mundo. Mas para isso, eu preciso saber o que
eles pensam”, aponta.
Estar disposto a conhecer o mundo
de mente e coração abertos é a dica que ela frisa aos novos profissionais que
ajuda a formar. “Não se permita o cinismo ou a indiferença, ela é danosa.
Devemos produzir jornalismo com censo crítico, com extrema desconfiança o tempo
todo”, comenta a leitora assídua de Gay Talese, Hunter Thompson e Eliane Brum,
grandes profissionais que detém essas qualidades.
A vida como jornalista
proporcionou à paraense conhecer coisas que jamais saberia sem ter testemunhado
no trabalho. A década e meia de prática jornalística desfizeram quaisquer
conceitos construídos durante a sua juventude, deixando somente o senso de
justiça, democracia e o amor pelo jornal. Nisso ela reintera: “Não tem a ver com grana nem poder”.
Talvez seja por isso que todos na sala ouvem
atentos as suas explicações, por saberem que quem os fala ama
incondicionalmente o que fez e o que faz.
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