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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Especial televisão (parte 3)

Por Alice Andrade
Um magnata da mídia brasileira, somado a sua ousadia e à realização de um sonho pessoal: foi essa a fórmula que resultou na criação da primeira emissora de televisão da América Latina, no ano de 1950. Tendo sido batizada com o nome de origem indígena, devido ao apreço de seu criador por tal cultura, a TV Tupi definitivamente revolucionou a comunicação  no Brasil.

Assis Chateaubriand, conhecido como
 "pai da televisão brasileira"
(Foto: caetanistas78.blogspot.com)
   Como ainda não havia profissionais específicos para esse campo, algumas das equipes do rádio e do teatro logo migraram para a televisão e produziram conteúdos de grande repercussão e popularidade. As novelas, por exemplo, alcançaram significativo sucesso no Brasil, assim como Sua Vida Me Pertence, com Vida Alves e Walter Forster, que mostrou o primeiro beijo na televisão.

Inicialmente, a ideia de criar uma emissora no Brasil surgiu de quando Assis Chateaubriand – que na época já era dono de uma rede de jornais e rádios, conhecida como Diários Associados - visitou um estúdio de televisão americano, ficou encantado com a transmissão de imagens para os aparelhos televisores e resolveu implantar a ideia em seu país, exatamente no período em que o rádio era o meio de comunicação mais popular. 
   Dessa forma, apesar de todos os incentivos para que o seu investimento fosse voltado para o radialismo, o jornalista quis inovar e importou a tecnologia da televisão dos Estados Unidos. Contudo, por ainda não existirem emissoras brasileiras, também não havia receptores do sinal de TV. Então, Chateaubriand também trouxe os aparelhos receptores, cerca de duzentos, e os espalhou pela capital paulista.
(Foto: pt.wikipedia.org)
 A cerimônia de abertura da televisão pioneira contou com o Frei José Mojica, que cantou "A canção da TV", hino composto pelo poeta Guilherme de Almeida, contando também com a presença da atriz Lolita Rodrigues. Quem assumiu a direção artística da Tupi foi o então radialista Cassiano Gabus Mendes, ainda nos seus 23 anos. 
Frei José Mojica (esquerda) e a atriz Hebe Camargo (direita)
Foto: (portalsaofrancisco.com.br) 
O primeiro programa transmitido foi TV na Taba, cuja apresentação era feita por Homero Silva. Além disso, contou-se com as participações especiais de Lima Duarte, Hebe Camargo, o balé de Lia Aguiar, Vadeco, Aurélio Campos, Mazzaropi, Ciccilo, Ivon Cury, Wilma Bentivegna, o jogador Baltazar, Rosalina Coelho Lisboa e a orquestra George Henri. Quem entoou o prefixo da emissora foi a atriz Yara Lins, ao dizer: "PRF-3". Quanto à primeira imagem que foi exposta aos telespectadores inaugurais, tratou-se da frase "está no ar a TV no Brasil", dita por Sônia Maria Dorce, na época com 5 anos, vestida de indiazinha.

Repórter Esso
O Repórter Esso, trazido do rádio, também teve grande
sucesso na televisão
(Foto: emporiodenoticias.com)
Em 17 de junho de 1953, foi ao ar o Repórter Esso, o qual já fazia sucesso no rádio e, introduzido na televisão, arrebatou a audiência no horário das 19h45. A apresentação do telejornal, em São Paulo, era feita por Heron Domingues e Gontijo Theodoro, que entravam no ar para trazer notícias nacionais e internacionais. Mais tarde, no ano de 1955, o primeiro programa de auditório foi criado, titulado O céu é o Limite. 






Ao vivo
   A TV Tupi de São Paulo também foi a primeira na transmissão ao vivo ao decidir mostrar a inauguração de Brasília, em abril de 1960. Por causa da inexistência de satélites, solicitaram três aviões voando em círculos na rota Brasília-São Paulo para que a transferência do sinal fosse feita através deles.
   Dessa maneira, a imagem era captada em Brasília e transmitida para o primeiro avião, que retransmitia para o segundo e depois para o terceiro, o qual, por fim, retransmitia para a antena principal da TV Tupi, em São Paulo. Esta enviava novamente o sinal para as demais áreas de alcance, exibindo a inauguração da capital nacional aos paulistas em tempo real.

Inovação
Com o passar do tempo, a televisão foi se popularizando e, por isso, seu conteúdo teve de acompanhar esse desenvolvimento. Sendo assim, uma das novelas produzida pela Tupi, Beto Rockfeller, de Bráulio Pedroso, inovou a linguagem da televisão no ano de 1968. A partir da figura de um anti-herói, nasceu um estilo singular de interpretação, em que se notou uma maior naturalidade. Isso conquistou o público, aumentando a audiência e trazendo uma maior aceitação desse tipo de programação.
Abertura e trecho da novela Beto Rockfeller (1968) 

O fim da TV Tupi
Mesmo com o êxito inicial alcançado, a morte de Assis Chateaubriand, em 1968, deu início a uma longa crise administrativa e financeira da TV Tupi. Isso gerou uma queda de audiência, além do fato de que emissoras concorrentes começaram a surgir. Por esses motivos, no dia dezessete de julho de 1980, pouco antes de completar 30 anos no ar, a Tupi teve sua concessão cassada pelo governo federal de Figueiredo. 

Símbolo da TV Tupi (Foto: diariopernambucano.com.br)
Nessa perspectiva, a primeira emissora brasileira teve seus transmissores apreendidos. No entanto, sua importância no contexto da comunicação do Brasil, especialmente no que se relaciona ao contexto audiovisual, jamais deixou de ser reconhecida. Como pioneira, a TV Tupi, fruto da criatividade e visionarismo de Chateaubriand, é, inegavelmente, um marco na história do nosso país.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Especial Televisão (parte 2)



Por Matheus Soares
   Em 1252, a franciscana Santa Clara descansava em sua cama, no mosteiro que vivia há 40 anos, por estar muito doente. Devido à fragilidade, ela não acompanhou suas colegas na celebração especial de Natal. Mesmo longe, Clara assistiu toda a missa sem sair do leito, mais de 800 anos antes da invenção da televisão. Dizem popularmente que ela acompanhou, por meio de uma visão, todos os detalhes como se estivesse no evento.
   Dessa forma, já no século XX, Santa Clara foi considerada a padroeira da televisão. E sendo sua função zelar pelo novo advento, podemos dizer que ela fez bem o seu papel de popularizá-lo.
Na década de 20, a televisão era artigo de luxo e não apresentava nenhuma capacidade de concorrência ao cinema e o rádio, meios de comunicação já consolidados, como já vimos na primeira parte. Inclusive, as empresas radiofônicas foram responsáveis pelas primeiras transmissões experimentais.
   Na Inglaterra, por exemplo, a BBC foi a primeira a manter uma transmissão regular, porém mínima, antes da segunda guerra mundial. Em 1941, as americanas NBC e CBS também apostaram na telinha, com horários limitados e definidos para a apresentação dos programas.
   A popularidade da televisão, no entanto, foi enorme. Depois da Segunda Guerra Mundial a audiência explodiu, crescendo a cada semana e roubando o público das salas de cinema e os ouvintes do rádio.
   Os estúdios hollywoodianos, em uma tentativa de impedir o crescimento da TV, reivindicaram uma taxa para ter acesso à transmissão. Mas nem os poderosos empresários de Hollywood conseguiram barrar a popularidade dela. A partir dos anos 50, quando os eletrodomésticos invadiam as casas, a audiência televisiva já estava consolidada.
   Dez anos depois eram mais de 750 milhões telespectadores em todo o globo, acompanhando visualmente os principais acontecimentos mundiais, como a coroação da Rainha Elizabeth e as Olimpíadas.
   Os mortais, agora, tinham a chance de, como Santa Clara, assistir o que acontecia fora de suas casas.

Tudo em cores
   Na década de 50 as imagens transmitidas eram muito mais nítidas que aquelas dos primeiros anos de televisão. Porém, a tecnologia foi capaz de criar câmeras que captavam as cores, tornando o conteúdo mais vivo e interessante. A televisão devia seguir o avanço tecnológico e substituir a imagem em preto e branco.
   Mas, o desafio maior era mudar os sistemas de transmissão sem desperdiçar os aparelhos antigos. Em 1953, foi criado um comitê com os principais industriais americanos, o National Television System Committe, para trazer cor à televisão, usando o mesmo sistema da imagem preto e branco.
   Um ano depois, os EUA fazem a primeira transmissão regular em cores.

domingo, 28 de abril de 2013

Especial televisão (parte 1)


Por Matheus Soares

   “Os grandes eventos mundiais, ao passarem diante da câmera, serão realizados no mesmo instante perante a humanidade”, previu um escritor da revista científica Lightning, em 1893. As palavras do autor ainda estariam longe de virar realidade, pois apenas no final do século XIX a base técnica da televisão, objeto o qual teria capacidade de transmitir os “eventos mundiais”, foi desenvolvida.
   As primeiras transmissões, com imagens estáticas, se constituíam da varredura em linhas sequenciais que se moviam de cima para baixo e da esquerda para a direita, com um feixe de luz. Quando a luz passava, produzia sinais elétricos, que eram transmitidos por cabos ou ondas de rádio.
   Após muitos estudos e experiências de pessoas diferentes, o tubo de raio catódico foi usado num sistema televisivo, servindo como receptor dos sinais elétricos. O equipamento transformava esses sinais em energia, mais precisamente em um feixe de elétrons, e sensibilizava uma tela, formando a imagem.
   Esse aparato foi aperfeiçoado pelo russo Vladmir Zworykin, no início da década de 20. O cientista criou, e patenteou em 1932, o sistema completo de televisão. A TV, assim, começou a ser propriamente produzida.
   No entanto, os grandes aparelhos com televisores minúsculos não se popularizaram facilmente nos primeiros anos. Ainda nos anos 30, o cinema não avistava a telinha como uma possível rival, a produção dos equipamentos era em baixa escala, e a nitidez da imagem era precária.
   Em 1929, a BBC conseguiu a permissão para lançar um serviço de televisão, ainda em nível experimental. Dez anos depois, a mais potente estação da época era instalada na Torre Eiffel, os franceses, assim, também tiveram a oportunidade de assistir imagens em movimento.
   A Segunda Guerra Mundial, porém, trouxe momentos de baixa à televisão. O serviço britânico foi suspenso, e, mesmo que continuassem na França e Alemanha, as outras transmissões eram ocorriam de forma não regular.
   A televisão apenas ressurgiu em Londres, após a derrota dos nazistas pelos aliados, em 1946, quando o tubo de transmissão foi produzido em escala industrial. A partir disso, quem não acreditava, viu e quem via, gostava.

   Entenda como funciona a tv de raios catódicos:

sexta-feira, 15 de março de 2013

Especial CASO ESCOLA BASE (Parte 5)

A mídia que constroi é a mesma que destroi

Por Alice Andrade
   É perceptível que nós, profissionais da comunicação, temos um considerável poder de influência sobre a sociedade. A partir do momento no qual damos, arbitrariamente, uma sentença a determinado caso, fazemos com que inúmeras pessoas tomem isso como verdade absoluta e saiam reproduzindo tais informações.

   A Escola Base é um exemplo de má apuração e falta de ética. Na corrida pelo furo de reportagem, vários jornalistas divulgaram informações equivocadas que destruíram, para sempre, a vida dos acusados.

   Dentro dessa abordagem, deve-se ressaltar o Diário Popular – atualmente Diário de São Paulo – por sua postura cautelosa. O jornal foi o primeiro a ter conhecimento sobre as acusações, mas preferiu esperar para que houvesse uma maior checagem dos fatos.

   O então editor, Miranda Jordão, ordenou que fosse publicada apenas uma matéria com informações técnicas sobre o que estava acontecendo. Sendo assim, foi forte a pressão que a redação do jornal sofreu por não ter divulgado nada a respeito do episódio. Alguns até suspeitaram de um acordo entre o Diário e a escola para diminuir a proporção do ocorrido.

   Hoje, o caso Escola Base se tornou referência obrigatória nas discussões a respeito de ética no jornalismo e poder da mídia. Infelizmente, seis pessoas precisaram ter suas vidas devastadas para que essas reflexões fossem mais frequentes.

   Por isso, temos que observar essa história como um modelo negativo de se fazer jornalismo. Afinal, se o poder que temos em nossas mãos – na figura de comunicadores – é grande, a responsabilidade que o acompanha deve ser ainda maior.

“De fato, se a imprensa diária, tal como acontece com outros grupos profissionais, tivesse de pendurar um letreiro, seus dizeres deveriam ser os seguintes: aqui, homens são desmoralizados com a maior rapidez possível, na maior escala possível e ao preço mais baixo possível.”

Sorel, 1848
 



CONFIRA TODO O ESPECIAL

quinta-feira, 14 de março de 2013

Especial ESCOLA BASE (parte 4)


Por Alice Andrade


   Uma vez condenados pela mídia e, consequentemente, pela maioria da sociedade, as reais vítimas do caso Escola Base jamais recuperaram a honra e nem a paz. Mesmo após o encerramento do caso, os veículos de comunicação não se retrataram da forma correta. Muitos divulgaram que as investigações cessaram por falta de provas; no entanto, entre faltar provas e a confirmação da inocência dos seis há uma enorme distância.

   Ayres Shimada está com muitas dívidas financeiras. Além disso, sofre com problemas emocionais e não consegue dormir à noite. Sua esposa, Maria Aparecida Shimada, viu seu projeto (a Escola Base) terminar devido às acusações.

   Saulo e Mara Nunes chegaram a ser presos durante o clímax do caso, mas foram soltos depois da corroboração de sua inocência. Entretanto, enfrentam problemas financeiros por causa da dívida acumulada durante a contratação de advogados.

   Já o casal Paula e Maurício Alvarenga se divorciou. Ele ficou transtornado psicologicamente, sofria de síndrome do pânico, tinha medo de sair à rua e, para encontrar seu advogado, montava esquemas de disfarce devido ao medo de alguém o reconhecer. Já Paula, após a separação, foi morar com suas duas filhas na casa da mãe e não possui emprego fixo, pois está impedida de lecionar. Seu rosto estava marcado e ninguém jamais confiou novamente em uma suspeita de abuso sexual infantil.

   Edélson Lemos, delegado responsável pela maior parte das investigações, tornou-se delegado titular e dá aulas na academia de Polícia Civil.

   Richard Pedicini, o “gringo” da história, se viu livre das acusações ao ser desmentido o seu suposto envolvimento no caso Escola Base. Após o episódio, dedicou-se a provar, cada vez mais, a sua inocência. Dessa forma, também aglomerou inúmeros débitos financeiros.

   As mães Cléa e Lúcia, aconselhadas pela psicóloga Walquiria Fonseca Duarte, continuaram com o tratamento psicológico dos seus filhos, pois, de acordo com a especialista, eles foram realmente vítimas de abuso sexual.

   As vítimas da acusação moveram uma ação contra o Estado e alguns veículos de comunicação, como a Veja, Folha de São Paulo e a Globo. A esposa de Ayres faleceu em 2007 por causa de um câncer; Maurício e Ayres receberam ressarcimentos de algumas empresas, no entanto ainda aguardam a indenização do Estado. Embora tenham sido ressarcidos, eles continuam com problemas financeiros e abalados psicologicamente, visto que a suas vidas foram completamente arrasadas pela polícia, imprensa e sociedade.

   Paula foi a única que não recebeu nada e está correndo risco de que seu processo prescreva. Atualmente, ela mora em sua casa depredada, tem problemas de saúde, emocionais e financeiros. Ela nunca conseguiu outro emprego.       

quarta-feira, 13 de março de 2013

Especial ESCOLA BASE (Parte 3)



Por Alice Andrade
   Após a prisão preventiva de Saulo e Mara, os advogados tiveram acesso ao telex do Instituto Médico Legal (IML) e viram que o seu resultado era totalmente inconclusivo. O documento alegava que as cicatrizes no menino poderiam ser tanto de um abuso sexual como também de uma diarreia forte. Mais tarde, a própria Lúcia Eiko confirmou que seu filho sofria de constipação intestinal.

   Nesse contexto, a situação dos indiciados começou a ser revertida. Provas da inocência dos seis, como depoimentos de funcionários do colégio e dos pais de outros alunos, passaram a surgir na defesa deles.

   Todavia, apenas no dia 22 de junho os suspeitos de abuso sexual de menores foram inocentados pelo delegado Gérson de Carvalho. Discretamente, os jornais começaram suas retratações e focaram no ponto de vista das atuais vítimas, antes culpados. Porém, nada foi suficiente para consertar tantos danos morais e a exposição gerada aos três casais envolvidos.

Principais Envolvidos

   Os principais envolvidos no episódio foram os proprietários da escola, o casal Maria Aparecida Shimada e Icushiro Shimada (Ayres); seus sócios, Paula Milhin de Monteiro Alvarenga e Maurício de Monteiro Alvarenga; e os pais de um dos alunos, Mara Cristina e Saulo Nunes. Ambos foram os acusados de abuso sexual contra as crianças da Escola Base e julgados precocemente pela imprensa e polícia.

   No entanto, o delegado Edélson Lemos também figurou entre os nomes de destaque no caso. Foi ele quem interpretou o telex do IML de maneira parcial.

   Ainda dentro da polícia, pode-se citar o nome do juiz Galvão Bruno e dos delegados Gérson de Carvalho e Jorge Carrasco. Estes assumiram as investigações após o afastamento de Lemos.

   Contudo, é impossível falar no caso Escola Base sem lembrar os nomes daquelas que deram início a todo o desenrolar da história: Lúcia Eiko e Cléia Carvalho. Já Richard Harrod Pedicini, americano residente no bairro da Aclimação, foi acusado de ser o responsável pelo tráfico das fotos dos menores da Escola Base e também de outras crianças.