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domingo, 21 de abril de 2013

Clica, foca!

Silêncios gritantes

Por Natália Noronha

Martin Usborne é um fotógrafo inglês e ganhou destaque na mídia nas últimas semanas por fazer uma sessão de fotos um tanto diferente. Uma espécie de book não muito feliz, mais ou menos sombria, mas cuja ideia é admirável. Usborne reuniu numa série fotos de cães abandonados em carros por seus donos e a intitulou de “The Silence of Dogs in Cars”.
Em tom de revolta ou de conscientização, o fotógrafo britânico tenta reproduzir o sentimento do animal abandonado. É um silêncio que nos diz, que grita, que pede e que chora - há silêncios mais gritantes do que qualquer rasgar de garganta. Silêncio residente no olhar inocente de quem foi deixado pelo companheiro. Silêncio resposta do medo de que não haja volta.
A ideia de fazer a série veio de um episódio da vida pessoal de Usborne. Em seu site, o fotógrafo inglês relata que quando tinha quatro anos, foi deixado no carro fora do que lembra ser um supermercado, e o sentimento que mais o consumia era a dúvida de que alguém iria voltar. Na mesma idade, começou a se aproximar dos animais e prestar atenção no tratamento do homem com os bichinhos. Essas duas experiências, aliadas, são as possíveis motivações para a realização da série.
A relação de Usborne com animais não para por aí. Ele mantém um blog em que escreve sobre as contribuições que faz na luta contra o abandono de animais. (Acessa www.yeartohelp.com e confere!)
            “The Silence of Dogs in Cars”, além de ser uma linda expressão artística, é sem dúvida uma forma de conscientizar a população sobre o abandono de animais em carros.
A série fica disponível na Black Gallery, em Londres, até o próximo dia 27.












Você pode conferir mais do trabalho de Usborne aqui.

domingo, 14 de abril de 2013

Clica, foca!


Das ruas falantes da Suécia


Por Natália Noronha

O domingo preguiçoso do Clica, foca! se dedica ao trabalho do sueco Nils-Erik Larson, fotógrafo cuja especialidade são registros de rua.  A maioria de suas fotos é em preto e branco e retrata situações corriqueiras nas ruas da Suécia.
Um senhor fumando, um moço ajudando uma senhora, mulheres se abrigando da chuva... Detalhes do dia para os quais a gente nem olha, mas em foto perdem a pequenez do detalhe por se tornarem grandes. É interessante ver que uma fotografia pode nos cativar a atenção para algo que passa batido numa expressão que não a fotográfica.
Algumas das fotos de Larson, se atenciosamente observadas, são descobertas numa intenção tendenciosa. Não foram clicadas por serem clicadas; foram clicadas para dizer alguma coisa. Fotografia, às vezes, não é imagem: é fala. É a expressão da completude que há entre fala e imagem.
E sobre estar “no lugar certo e na hora certa”, há de se perguntar sobre sorte ou talento. Qualquer dos dois que seja, talento ou sorte, o trabalho resultante é facilmente admirável em beleza de contraste, momento e cor.
A gente selecionou algumas fotos do acervo urbano de Larson e trouxe pra vocês.














Você pode conferir a galeria completa de Larson aqui.

sábado, 16 de março de 2013

Clica, foca!



Por Natália Noronha

A capacidade de capturar o novo através de uma imagem, sem precisar nada dizer, muito me admira. O novo já admira, já cativa atenção, mas há aqueles que conseguem realçar o fato com ângulos, com cores, com posições, com distâncias. Toda a minha admiração aos bons fotojornalistas!
Essa conversa toda serviu apenas pra dar um contexto ao post de hoje. O Clica, foca! traz imagens da segunda semana deste mês. Os acontecimentos, os eventos, as pessoas que despertaram o olhar (e os dedos) dos fotojornalistas e viraram registro fotográfico. Vamos ver o que aconteceu de bom no fotojornalismo desta semana?

Domingo, 10 de março
O projeto “Praia Para Todos” se propôs a oferecer uma melhor infraestrutura para os deficientes físicos que desejam curtir a praia. A ação contou com o trabalho de salva-vidas e aconteceu no último domingo na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Foto: ERBS Jr./Frame

Segunda, 11 de março
Um protesto que reivindica a não utilização de animais em apresentações circenses foi feito na cidade de Medellín, na Colômbia. Os ativistas pintaram o corpo e se prenderam numa jaula para defender os direitos dos animais.
Foto: Albeiro Lopera/Reuters

Terça, 12 de março
No velório de uma mãe e seus sete filhos, todos de naturalidade turca, mortos em um incêndio em Backnang, na Alemanha, homem deixa anotação em cima de um dos caixões. O enterro será realizado na Turquia após os corpos serem transportados de Backnang, onde ocorreu o velório, ao país.
Foto: Marijan Murat/AFP

Quarta, 13 de março
Registro de uma ação do corpo de bombeiros para conter o fogo que se originou de um curto circuito num escritório em Niterói (RJ), que resultou em três feridos. As chamas foram apagadas.
Foto: Márcio Alves/Agência O Globo

Quinta, 14 de março
Próximo à Avenida Paulista, funcionários do Sindicato dos Bancários manifestam em frente à agência do banco. Os manifestantes alegam sofrer assédio moral e justificam suas fantasias com o fato de o trabalho ser um inferno.
Foto: Gustavo Basso/UOL

Sexta, 15 de março
Parente de um taxista palestino chora em seu velório em Al-Ram, na Cisjordânia. Moayad Ghazawneh, 34, foi morto enquanto confrontava forças israelenses.
Foto: Majdi Mohammed/AP

sábado, 9 de março de 2013

Clica, foca!


Por Natália Noronha

Hoje o Clica, foca! traz as imagens da semana. Imagens que você provavelmente não viu.

Ai, Natália, é mais uma “retrospectiva do que não foi visto”?

É quase por aí! Vamos te mostrar alguns registros dessa primeira semana de março; registros de temas que você provavelmente não viu na tevê nem leu na internet. 


Domingo, 3 de março
Em Nagatoro, no Japão, budistas andam sobre fogo em ritual que anuncia a vinda da primavera.
Foto: Toshifumi Kitamura/AFP



Segunda, 4 de março
Mulher chora pela morte de parente causada por explosão, em Karachi, no Paquistão. A explosão aconteceu próximo a uma mesquita e matou pelo menos 52 pessoas.
Foto: Athar Hussain/Reuters



Terça, 5 de março
Em Chicago (EUA), escultura “Cloud Gate” fica coberta de neve. Esta é a pior nevasca deste inverno no território americano. Voos foram cancelados devido à quantidade de neve.
Foto: Brian Kersey/Getty Images/AFP




Quarta, 6 de março
Devotos hindus usam pó colorido durante celebração no festival Maha Kumbh, em Allahabad, na Índia.
Foto: Sanjay Kanojia/AFP



Quinta, 7 de março
Na avenida paulista, bailarinas pedem ajuda a fim de arrecadar dinheiro para custear a ida de seu grupo de dança a um evento na França.
Foto: Leo Martins/Frame/ Ag. O Globo






Sexta, 8 de março
Após um protesto contra as forças israelenses, manifestante palestino corre segurando uma criança nos braços, em Kafr Qaddum, perto da Cisjordânia. Os manifestantes protestavam contra a desapropriação de terras palestinas pelos israelenses.
Foto: Jaafar Ashtiyeh/AFP Photo



Sábado, 9 de março
Em Porto Alegre (RS), ciclistas promovem a "World Naked Bike Ride", cuja proposta é pedir respeito aos ciclistas no trânsito. O ato é uma pedalada que envolve não só ciclistas (e não só pessoas despidas) e acontece em várias cidades do mundo.
Foto:Diogo Sallaberry/Futura Press








sexta-feira, 1 de março de 2013

Clica, foca!


Por Natália Noronha

Que atire o pau no gato quem não gosta de bichinhos. Quem não fica se remexendo na cadeira quando vê fotos de animais fofos na internet? Como se não fossem lindos o bastante, alguns até arriscam poses e expressões engraçadas e deixam a foto melhor ainda.

O Clica, foca! está fofo nesta sexta-feira e resolveu juntar fotografia e animais. Quero ver o coro de “Owwwwwn!” bem afinado, hein.

 Cãozinho faz passeio por uma floresta próxima a Hannover, na Alemanha.


Essa gatinha se chama Contessina e é o mimo do Papa Bento XVI. A foto foi tirada no interior do Vaticano, seu lar-doce-lar. O que muita gente não sabe é que Joseph Ratzinger é um fã de bichinhos e já foi flagrado acariciando animais de rua antes de assumir o posto.

No Parque Mamíferos Marinhos, na Holanda, esse golfinho e sua turma se preparam para mais uma temporada de apresentações que o parque oferece. Quem divide a foto com o bichinho é Joyce Hazelof, treinadora do parque.

Essa raposa preguiçosa e seu amiguinho foram fotografados num jardim de Berlim, na Alemanha.

Tigre encara um porquinho antes de caçá-lo no Centro de Resgate de Tigres, na ilha de Sumatra. (Tudo bem, essa não é lá das mais fofas.)

Essa vaquinha parece faminta em fazenda de Seefeld, Alemanha.

Pedinte carrega seu macaquinho enquanto percorre as ruas Rawalpindi, no Paquistão.


 Esse leão-marinho foi capturado por uma equipe de resgate da Califórnia.





sábado, 23 de fevereiro de 2013

Clica, foca!


Por Natália Noronha

Quando comecei a me interessar por fotojornalismo, a primeira personalidade da área que conheci foi João Bittar. Estava procurando conteúdo para um seminário da faculdade que tratava do assunto, e um dos primeiros resultados da pesquisa foi um vídeo bem interessante. Foi com o vídeo que eu comecei a entender o que penetrava a face superficial da área, o que ia além de câmera, de fotógrafo e de fotografado apenas.
No início do vídeo, João Bittar cita a frase “Se sua foto não está boa o bastante, é porque você não está próximo o bastante”, dita por Robert Capa, fotógrafo húngaro. Quem lê o Clica, foca! sabe que eu já usei essa citação por aqui. E quando a usei, disse que, com a frase, Capa falava sobre uma distância não-física, sobre uma distância que não se importava com metros e centímetros. Era uma distância de envolvimento. Quanto mais o fotógrafo se envolver com a foto – e no sentido de “foto” cabe pessoas, cenário, ambiente, contexto histórico, luz, momento, ângulo -, melhor será o resultado final.
No vídeo, Bittar ainda fala um pouco sobre a disciplina de foto, relembra grandes nomes da área e apresenta o Curso João Bittar de fotografia, expondo trabalhos de alunos e explicando como é feito o processo da escolha e execução de pautas. A conversa é bem descontraída – dá pra flagrar João mexendo num cigarro – e nenhum pouco monótona para quem se interessa.
João Bittar morreu em 2011, vítima de um infarto fulminante. Fotografava desde os 17 e fez fotos para a VEJA, IstoÉ, Folha de São Paulo, entre outros.

Segue o vídeo:


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Clica, foca!


Hoje a gente dá tchauzinho pra nossa micro-série-sem-nome que começamos há três semanas. Passeamos por três porções do fotojornalismo (que você pode conferir aqui, aqui e aqui) e hoje desembarcamos em nosso último destino: o esporte.


Parte III - Esporte

 Por Natália Noronha

Há os que não gostam de praticar atividades físicas, há os que não estão nem aí para quem ganhou o campeonato brasileiro de futebol, mas admita comigo: quem não curte assistir às Olimpíadas? Há uma satisfação divertida em ver atletas defendendo suas pátrias. Mesmo que você seja daqueles que odiavam fazer educação física na escola, vibra e se empolga, porque todo aquele movimento de pessoas buscando a mesma coisa desperta na gente todas aquelas noções de garra, força, esperança, mesmo que a gente não perceba. (Eu sei, você não me engana; sua mente faz torcida, grita “vai!” - é abafada pelo corpo estático mas descoberta pelos olhos atentos à tevê).

E dentro do esporte não faltam momentos dignos de fotografia. Embora cronometrado e sistematizado em regras, tudo é muito espontâneo: o choro da vitória, a dor de uma contusão, a frustração de uma perda, que podem ser muito bem traduzidos, dependendo do fotógrafo, momento, luz, distância ou ângulo. Ângulo. Bom ângulo. Foi o que definiu a foto de hoje.



    Foto em 13 de setembro de 2012. Dados da câmera: Canon EOS-1D X, lentes 400mm, f2.8, 1/1600, ISO 2000

Andrew Winning, fotógrafo britânico, fazia cliques das competições de atletismo das Paralimpíadas de Londres, num local preparado exclusivamente para que os fotógrafos obtivessem o melhor ângulo para suas imagens. Ficava bem na “boca” da pista de corrida.

“Durante uma pausa nas competições, eu percebi que tinha uma boa visão dos atletas do salto em distância, na parte de dentro da pista.”
Winning à Reuters, agência britânica de notícias

Devido às diferenças físicas dos corredores, cada um tinha suas próprias técnicas de salto. E Lukasz Mamczarz, atleta polonês, foi o exemplo mais impressionante para Andrew. Ele tinha uma perna amputada, e mesmo apoiado na perna direita apenas, conseguia grandes saltos. Corria com as duas, mas abandonava a esquerda para saltar apoiando-se na direta. Após finalizar o salto, voltava para recolher a prótese.

“Eu adorei a maneira com que esse simples gesto resumia toda a capacidade de Lukasz de passar pelas dificuldades e fazer algo notável. Também adorei como superava os preconceitos das pessoas sobre o que ele poderia fazer com apenas uma perna boa.”

No final do depoimento à Reuters, Andrew considerou esta uma das melhores imagens das Paralimpíadas e ficou grato por tê-la fotografado.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Clica, foca!


Hoje o Clica, foca! traz a terceira parte da nossa pequena-nova-série [ainda sem nome] de foto. Prometemos a vocês que dividiríamos o campo do fotojornalismo em quatro grupos, e de cada grupo traríamos a história de uma foto. Já passamos pelos Beatles, pelos proletários imigrantes e hoje vamos entrar no meio de uma guerra. Bora ler?

Parte III - Guerra

 Por Natália Noronha

A foto de hoje não teve tanta repercussão quanto as fotografias anteriores, mas decidi adicioná-la à série pela força que tem – e a força de uma foto é o que mais tenho tentado mostrar. No entanto, hoje vou dividir a fala com alguém. Um cara que vai te relatar a foto bem melhor que eu. Você vai ler o relato do próprio autor do registro, Shamil Zhumatov, fotógrafo da agência de notícias britânica Reuters. Dono de uma galeria cuja porção maior de fotos são registros de bombardeios, ataques ou flagrantes de violência, Shamil contou à Reuters a história do clique de hoje. Olha aí:




“Eu fui incorporado a uma equipe de apoio do pelotão dos EUA em uma base pequena de policiais afegãos. Na verdade, é um erro chamar aquilo de base - um edifício feio por trás de uma parede de tijolos crus cheios de marcas de bala. O primeiro dia foi relativamente tranquilo - um pouco de tiroteio que cessou logo à noite. No dia seguinte o mundo desabou: um tiro, uma breve pausa e depois novamente o disparo. Um grupo do nosso pelotão iria mandar bala em volta do prédio a cada 40 minutos para patrulhar a área de onde os tiros foram disparados em nossa direção. Alguns desses grupos de patrulha não davam sorte e acabavam sendo alvejados. Acompanhei algumas patrulhas pela manhã e me senti exausto logo ao meio-dia. Fazia um calor absurdo, cerca de 40 graus. Um tempo depois, um grupo decolou e eu fiquei na base. 
O grupo foi baleado novamente. Tudo ficou assustador. Um tiro, depois outro e rajadas de metralhadora e depois tudo se transformou em um rugido ensurdecedor, sem fim. De repente, uma explosão rugiu. Eu consigo reconhecer uma explosão, e aquela foi das grandes. Quase ao mesmo tempo, eu ouvi alguém gritando pelo rádio: "Nós precisamos de um médico!" O médico que estava com a gente se aprontou e agarrou sua mochila; eu coloquei minha jaqueta e um capacete, alguém pegou uma maca e a gente saiu. Quando chegamos, o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça foi: por que diabos a gente precisa de um médico aqui? O cara está morto! Metade do corpo estava deitado no chão, não tinha mais nada debaixo da cintura e ele estava sem roupa. Todo mundo estava ocupado – enquanto alguém nos dava assistência, o médico fazia injeções e outros preparavam a maca. E eles gritavam para o soldado ainda inconsciente: "Espere! Tudo vai ficar bem!" Eu perguntei se eu poderia ajudar em alguma coisa. Só me pediram pra afastar uma metralhadora do corpo. Dei uma garrafa de água pr’um soldado ferido na perna. O cara bebeu e furiosamente jogou a garrafa fora. E no meio de tudo isso eu estava fotografando.
 Tentei ser o mais discreto que pude. O soldado gravemente ferido foi colocado na maca e todo mundo se preparou pra correr. Um sargento atirou seu rifle em minhas costas pra me avisar que levasse uma mina. Aí a gente correu. Os braços do soldado estavam caídos pra fora da maca. E enquanto a gente atravessava um lamaçal, alguém gritou pra mim: "Coloque os braços dele na maca!” Peguei a mão esquerda do soldado ferido – estava quente, mas estranhamente leve, como se fosse oca - deitei sua mão em cima de seu peito, mas caiu de novo.
 Um helicóptero chegou de Kandahar apenas 10 minutos após a explosão. (As ambulâncias da nossa cidade não são tão rápidas assim!) A placa com uma cruz vermelha fez um círculo em cima da gente e pousou em um campo inundado por uma nuvem roxa de fumaça. Colocaram o soldado no helicóptero, gritaram alguma coisa para os médicos, aplicaram outra injeção e o helicóptero foi embora. A gente permaneceu no campo em um silêncio gritante. Foi aí que eu processei as coisas – fiquei com falta de ar e me senti mal. Voltamos, finalmente. Devolvi a mina e o rifle que jogaram em mim. Tinha uns meninos chorando; fui fazendo alguns cliques, tudo sem a menor pressa.
Decidiram enviar os soldados levemente feridos para uma base maior em um veículo blindado. Eu disse que iria também. Um soldado bem jovem desmaiou no caminho, e prontamente lhe aplicaram morfina. Chegamos ao hospital e ficamos esperando. Fiquei sentado perto da porta na tentativa de impedir a saída. O médico me pediu para ajudá-lo, e desajeitadamente eu segurei a mochila dele, o meu saco de dormir e uma metralhadora de um soldado ferido. Eu juntei tudo e coloquei no chão, bem pertinho da gente. Só minhas câmeras estavam comigo. A gente colocou o soldado que tinha desmaiado numa maca para levá-lo ao atendimento. Apenas os médicos se mantiveram frios naquela situação. Assim que a gente preparou a maca, uma médica disse "Vocês já podem ir embora, nós temos que trabalhar". Isso meio que acalmou a gente. 
Aquele soldado gravemente ferido sobreviveu. Teve os dedos amputados e inúmeros ferimentos na área da pélvis. Tinha 20 anos, um ano mais novo do que minha filha Alinka. 
Mais tarde fui editar as fotos e acertar contas com a assessoria de imprensa do exército. Porque se um soldado é ferido e fotografado durante o combate, já conta como invasão de privacidade, e você tem que assinar um acordo em escrito para publicar as fotos. Eles fazem bem direitinho – o soldado está vivo, então o soldado tem direitos. Em princípio, eles estão certíssimos. É que a gente vive num mundo diferente. Dois soldados que tinham saído nas minhas fotos assinaram prontamente os papéis. A equipe me agradeceu pela companhia e pelo que eu tinha feito por eles. Algumas fotos nunca serão publicadas. E eu ficaria grato se não as tivesse tirado, mas aconteceu. 
Disseram que eu tinha que ir pra casa e me mandaram para uma base maior onde estaria o helicóptero que me levaria. No meio do caminho, um comboio passou pela construção na delegacia de polícia afegã para deixar comida e água lá. Ironicamente, quando a gente chegou lá, os tiros começaram. Fotografei e tudo. Pegamos a estrada e ouvimos na rádio que um atirador do exército tinha finalmente pego quem estava atirando do outro lado. Conheço a criatura: um sargento pequeno e magro. Me disseram que ele não vê bem pelo olho esquerdo porque um fragmento de bala ficou lá, mas seu olho direito está ótimo. Capturaram o inimigo: o 11º que o atirador do exército conseguiu capturar. E aí eu fiquei aliviado. Um homem morreu, mas fiquei aliviado. Talvez a guerra seja coisa de gente nova. Vou é pra casa.“


Na foto: soldados do exército americano se consolam após saberem que um colega se ferira gravemente. Afeganistão, 12 de junho de 2012.
Observe a foto. Enquanto os soldados se abraçam, outro descansa atrás. Sua expressão corporal denuncia cansaço e frustração.

(É possível que vocês encontrem alguma incoerência ou falta de ligação entre as orações. Isso porque o texto original está em inglês e precisamos traduzi-lo. Então desde já pedimos desculpas por qualquer falha.)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Clica, foca!



No Clica, foca! de hoje tem a segunda das quatro partes da série que estreou sexta passada! A gente combinou com você de dividir o mundo do fotojornalismo em quatro pólos diferentes: Música, O Inusitado, Guerra e Esporte. De cada pólo, selecionaremos uma foto e a descobriremos pra vocês. E hoje é o dia d’O Inusitado. Dia do diferente, do estranho, do que não é de costume. Olha aí:



Parte II – O Inusitado
Por Natália Noronha

É fim do expediente no trabalho. Você está faminto. Sentindo-se solitária, a fome decide aliar-se ao trânsito numa conspiração irritantemente contrária a você. Precisa chegar ao shopping para almoçar, mas ainda tem de engolir umas várias doses de sinais vermelhos e buzinas. Haja paciência! Porque a demora é muita, você cansa e descansa no banco do carro. Põe uma musiquinha e abaixa o vidro para levar um ventinho, tudo com a tentativa de aliviar a agonia da espera. Passeando com os olhos pelo céu, você se depara com um negócio estranho.

Peraí... Aquilo... Pera. Aquilé a viga da construção, omi. Né possívum negócio desse... Aquilo em cima da viga é gente, é?

Enquanto mira a cena, boquiaberto e com as sobrancelhas enrugadas, pisca rápido e repetidamente, tentando processar o que vê:


  É gente em cima da viga sim, caro proletário. Gente que tá morta de fome que nem tu. Gente que não tem medo de altura. Gente corajosa. Mas que gente?

Essa gente corajosa e esfomeada é um grupo de operários imigrantes. Sem qualquer equipamento de segurança aparente, os funcionários almoçam tranquilamente sobre uma viga no 69º andar de um prédio em construção. O registro foi feito por Charles C. Ebbets, fotógrafo americano, em 20 de setembro de 1932 - sim, você voltou 80 anos no tempo -, durante a construção do RCA Building, no centro de Nova York.

A foto é espantosa talvez pela inesperada serenidade com que os operários lidam com a situação. São serenos a ponto de dividir um cigarro, de bater um papo e de trocar sorrisos, sem deixar escapar qualquer expressão de nervosismo ou medo: seu comportamento e expressões passam longe do esperado de pessoas a aproximados 259 metros do chão.

“Ah, mas é claro que é montagem! Tá na cara, ó!”

Se eu te dissesse que não, você acreditaria? Desde o lançamento da foto no jornal New York Herald Tribune, em 2 de outubro do mesmo ano em que foi clicada, as suspeitas de uma provável montagem foram levantadas, naturalmente apoiadas nas condições absurdas da cena. Suspeitas muito compreensíveis, inclusive. Até porque a situação arriscada em que estavam os operários mais parece resultado de uma bela sabotagem. Ken Johnston, entretanto, diz que não é sabotagem.
O diretor de fotografia histórica da agência Corbis foi convidado pelo jornal britânico The Telegraph a analisar a imagem em busca de qualquer indício de montagem. A análise foi feita no local onde a agência guarda o negativo da imagem, numa base subterrânea na Pensilvânia, onde são conservadas várias outras fotos históricas. Na análise, Johnston não encontrou nenhuma indicação de uma possível montagem e classificou o negativo como verdadeiro; ou seja, o negativo foi o mesmo usado no momento em que a foto foi tirada.

Em outra foto, alguns dos operários da obra chegam a deitar sobre a viga.


Sobre os protagonistas da cena
Era tempo de crise nos negócios e de desemprego: o país enfrentava a Grande Depressão de 29. E no desespero de quem precisa sustentar a família de qualquer maneira, muitos imigrantes aceitavam qualquer emprego, sem qualquer exigência de segurança – o que é constatado na falta de equipamento, de cordas de aço ou de cintos.
Dá pra gente se aprofundar mais nessa história. Eles a gente já sabe quem são. Mas e quem eles foram no momento da foto, a gente sabe? O sentido mais literal da expressão “ter o mundo aos seus pés” é reproduzido de forma muito interessante na imagem. Interessante porque todo o movimento da cidade (e todo o império das indústrias americanas, dos grandes prédios e grandes empresários), sob onde e quem sempre estiveram os pequenos operários, agora movimenta-se debaixo dos pés de quem a construiu. Quem sabe subiu às suas cabeças uma sensação de poder, de tudo-posso - até porque não havia mais ninguém acima deles.

Sobre a veracidade da foto
Numa reportagem feita pelo jornal britânico Independent, o historiador Ken Johnston revelou que a cena foi propositalmente forjada para um trabalho de divulgação do Complexo Rockfeller Center e descartou a teoria de que aquele era um momento cotidiano e, portanto, espontâneo. O cenário e os operários são reais e não houve montagem, mas os protagonistas da fotografia foram orientados a aparentar tranquilidade: tudo foi um esquema para divulgar o complexo de edifícios. Ainda segundo Johnston, o autor da foto é desconhecido e não Charles C. Ebbets como a maioria pensa. A teoria é a de que vários fotógrafos presenciaram o momento e participaram da produção do clique, o que deixa a dúvida sobre quem apertou o botão da câmera.

Viu que por trás de cada foto existe uma história? A gente percebe que uma crise econômica pode ser um fator influenciador do momento do clique, que a espontaneidade de uma cena pode ser apenas ilusória e que o ganhador dos créditos da imagem pode não ser quem fez o clique.

(E se sair do trabalho e no caminho até o almoço vir uma cena dessa, você vai estar preparado. Aí depois tira foto e manda pra gente.)