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domingo, 21 de abril de 2013

Clica, foca!

Silêncios gritantes

Por Natália Noronha

Martin Usborne é um fotógrafo inglês e ganhou destaque na mídia nas últimas semanas por fazer uma sessão de fotos um tanto diferente. Uma espécie de book não muito feliz, mais ou menos sombria, mas cuja ideia é admirável. Usborne reuniu numa série fotos de cães abandonados em carros por seus donos e a intitulou de “The Silence of Dogs in Cars”.
Em tom de revolta ou de conscientização, o fotógrafo britânico tenta reproduzir o sentimento do animal abandonado. É um silêncio que nos diz, que grita, que pede e que chora - há silêncios mais gritantes do que qualquer rasgar de garganta. Silêncio residente no olhar inocente de quem foi deixado pelo companheiro. Silêncio resposta do medo de que não haja volta.
A ideia de fazer a série veio de um episódio da vida pessoal de Usborne. Em seu site, o fotógrafo inglês relata que quando tinha quatro anos, foi deixado no carro fora do que lembra ser um supermercado, e o sentimento que mais o consumia era a dúvida de que alguém iria voltar. Na mesma idade, começou a se aproximar dos animais e prestar atenção no tratamento do homem com os bichinhos. Essas duas experiências, aliadas, são as possíveis motivações para a realização da série.
A relação de Usborne com animais não para por aí. Ele mantém um blog em que escreve sobre as contribuições que faz na luta contra o abandono de animais. (Acessa www.yeartohelp.com e confere!)
            “The Silence of Dogs in Cars”, além de ser uma linda expressão artística, é sem dúvida uma forma de conscientizar a população sobre o abandono de animais em carros.
A série fica disponível na Black Gallery, em Londres, até o próximo dia 27.












Você pode conferir mais do trabalho de Usborne aqui.

domingo, 14 de abril de 2013

Clica, foca!


Das ruas falantes da Suécia


Por Natália Noronha

O domingo preguiçoso do Clica, foca! se dedica ao trabalho do sueco Nils-Erik Larson, fotógrafo cuja especialidade são registros de rua.  A maioria de suas fotos é em preto e branco e retrata situações corriqueiras nas ruas da Suécia.
Um senhor fumando, um moço ajudando uma senhora, mulheres se abrigando da chuva... Detalhes do dia para os quais a gente nem olha, mas em foto perdem a pequenez do detalhe por se tornarem grandes. É interessante ver que uma fotografia pode nos cativar a atenção para algo que passa batido numa expressão que não a fotográfica.
Algumas das fotos de Larson, se atenciosamente observadas, são descobertas numa intenção tendenciosa. Não foram clicadas por serem clicadas; foram clicadas para dizer alguma coisa. Fotografia, às vezes, não é imagem: é fala. É a expressão da completude que há entre fala e imagem.
E sobre estar “no lugar certo e na hora certa”, há de se perguntar sobre sorte ou talento. Qualquer dos dois que seja, talento ou sorte, o trabalho resultante é facilmente admirável em beleza de contraste, momento e cor.
A gente selecionou algumas fotos do acervo urbano de Larson e trouxe pra vocês.














Você pode conferir a galeria completa de Larson aqui.

sábado, 16 de março de 2013

Clica, foca!



Por Natália Noronha

A capacidade de capturar o novo através de uma imagem, sem precisar nada dizer, muito me admira. O novo já admira, já cativa atenção, mas há aqueles que conseguem realçar o fato com ângulos, com cores, com posições, com distâncias. Toda a minha admiração aos bons fotojornalistas!
Essa conversa toda serviu apenas pra dar um contexto ao post de hoje. O Clica, foca! traz imagens da segunda semana deste mês. Os acontecimentos, os eventos, as pessoas que despertaram o olhar (e os dedos) dos fotojornalistas e viraram registro fotográfico. Vamos ver o que aconteceu de bom no fotojornalismo desta semana?

Domingo, 10 de março
O projeto “Praia Para Todos” se propôs a oferecer uma melhor infraestrutura para os deficientes físicos que desejam curtir a praia. A ação contou com o trabalho de salva-vidas e aconteceu no último domingo na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Foto: ERBS Jr./Frame

Segunda, 11 de março
Um protesto que reivindica a não utilização de animais em apresentações circenses foi feito na cidade de Medellín, na Colômbia. Os ativistas pintaram o corpo e se prenderam numa jaula para defender os direitos dos animais.
Foto: Albeiro Lopera/Reuters

Terça, 12 de março
No velório de uma mãe e seus sete filhos, todos de naturalidade turca, mortos em um incêndio em Backnang, na Alemanha, homem deixa anotação em cima de um dos caixões. O enterro será realizado na Turquia após os corpos serem transportados de Backnang, onde ocorreu o velório, ao país.
Foto: Marijan Murat/AFP

Quarta, 13 de março
Registro de uma ação do corpo de bombeiros para conter o fogo que se originou de um curto circuito num escritório em Niterói (RJ), que resultou em três feridos. As chamas foram apagadas.
Foto: Márcio Alves/Agência O Globo

Quinta, 14 de março
Próximo à Avenida Paulista, funcionários do Sindicato dos Bancários manifestam em frente à agência do banco. Os manifestantes alegam sofrer assédio moral e justificam suas fantasias com o fato de o trabalho ser um inferno.
Foto: Gustavo Basso/UOL

Sexta, 15 de março
Parente de um taxista palestino chora em seu velório em Al-Ram, na Cisjordânia. Moayad Ghazawneh, 34, foi morto enquanto confrontava forças israelenses.
Foto: Majdi Mohammed/AP

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Clica, foca!


Hoje a gente dá tchauzinho pra nossa micro-série-sem-nome que começamos há três semanas. Passeamos por três porções do fotojornalismo (que você pode conferir aqui, aqui e aqui) e hoje desembarcamos em nosso último destino: o esporte.


Parte III - Esporte

 Por Natália Noronha

Há os que não gostam de praticar atividades físicas, há os que não estão nem aí para quem ganhou o campeonato brasileiro de futebol, mas admita comigo: quem não curte assistir às Olimpíadas? Há uma satisfação divertida em ver atletas defendendo suas pátrias. Mesmo que você seja daqueles que odiavam fazer educação física na escola, vibra e se empolga, porque todo aquele movimento de pessoas buscando a mesma coisa desperta na gente todas aquelas noções de garra, força, esperança, mesmo que a gente não perceba. (Eu sei, você não me engana; sua mente faz torcida, grita “vai!” - é abafada pelo corpo estático mas descoberta pelos olhos atentos à tevê).

E dentro do esporte não faltam momentos dignos de fotografia. Embora cronometrado e sistematizado em regras, tudo é muito espontâneo: o choro da vitória, a dor de uma contusão, a frustração de uma perda, que podem ser muito bem traduzidos, dependendo do fotógrafo, momento, luz, distância ou ângulo. Ângulo. Bom ângulo. Foi o que definiu a foto de hoje.



    Foto em 13 de setembro de 2012. Dados da câmera: Canon EOS-1D X, lentes 400mm, f2.8, 1/1600, ISO 2000

Andrew Winning, fotógrafo britânico, fazia cliques das competições de atletismo das Paralimpíadas de Londres, num local preparado exclusivamente para que os fotógrafos obtivessem o melhor ângulo para suas imagens. Ficava bem na “boca” da pista de corrida.

“Durante uma pausa nas competições, eu percebi que tinha uma boa visão dos atletas do salto em distância, na parte de dentro da pista.”
Winning à Reuters, agência britânica de notícias

Devido às diferenças físicas dos corredores, cada um tinha suas próprias técnicas de salto. E Lukasz Mamczarz, atleta polonês, foi o exemplo mais impressionante para Andrew. Ele tinha uma perna amputada, e mesmo apoiado na perna direita apenas, conseguia grandes saltos. Corria com as duas, mas abandonava a esquerda para saltar apoiando-se na direta. Após finalizar o salto, voltava para recolher a prótese.

“Eu adorei a maneira com que esse simples gesto resumia toda a capacidade de Lukasz de passar pelas dificuldades e fazer algo notável. Também adorei como superava os preconceitos das pessoas sobre o que ele poderia fazer com apenas uma perna boa.”

No final do depoimento à Reuters, Andrew considerou esta uma das melhores imagens das Paralimpíadas e ficou grato por tê-la fotografado.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Clica, foca!


Hoje o Clica, foca! traz a terceira parte da nossa pequena-nova-série [ainda sem nome] de foto. Prometemos a vocês que dividiríamos o campo do fotojornalismo em quatro grupos, e de cada grupo traríamos a história de uma foto. Já passamos pelos Beatles, pelos proletários imigrantes e hoje vamos entrar no meio de uma guerra. Bora ler?

Parte III - Guerra

 Por Natália Noronha

A foto de hoje não teve tanta repercussão quanto as fotografias anteriores, mas decidi adicioná-la à série pela força que tem – e a força de uma foto é o que mais tenho tentado mostrar. No entanto, hoje vou dividir a fala com alguém. Um cara que vai te relatar a foto bem melhor que eu. Você vai ler o relato do próprio autor do registro, Shamil Zhumatov, fotógrafo da agência de notícias britânica Reuters. Dono de uma galeria cuja porção maior de fotos são registros de bombardeios, ataques ou flagrantes de violência, Shamil contou à Reuters a história do clique de hoje. Olha aí:




“Eu fui incorporado a uma equipe de apoio do pelotão dos EUA em uma base pequena de policiais afegãos. Na verdade, é um erro chamar aquilo de base - um edifício feio por trás de uma parede de tijolos crus cheios de marcas de bala. O primeiro dia foi relativamente tranquilo - um pouco de tiroteio que cessou logo à noite. No dia seguinte o mundo desabou: um tiro, uma breve pausa e depois novamente o disparo. Um grupo do nosso pelotão iria mandar bala em volta do prédio a cada 40 minutos para patrulhar a área de onde os tiros foram disparados em nossa direção. Alguns desses grupos de patrulha não davam sorte e acabavam sendo alvejados. Acompanhei algumas patrulhas pela manhã e me senti exausto logo ao meio-dia. Fazia um calor absurdo, cerca de 40 graus. Um tempo depois, um grupo decolou e eu fiquei na base. 
O grupo foi baleado novamente. Tudo ficou assustador. Um tiro, depois outro e rajadas de metralhadora e depois tudo se transformou em um rugido ensurdecedor, sem fim. De repente, uma explosão rugiu. Eu consigo reconhecer uma explosão, e aquela foi das grandes. Quase ao mesmo tempo, eu ouvi alguém gritando pelo rádio: "Nós precisamos de um médico!" O médico que estava com a gente se aprontou e agarrou sua mochila; eu coloquei minha jaqueta e um capacete, alguém pegou uma maca e a gente saiu. Quando chegamos, o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça foi: por que diabos a gente precisa de um médico aqui? O cara está morto! Metade do corpo estava deitado no chão, não tinha mais nada debaixo da cintura e ele estava sem roupa. Todo mundo estava ocupado – enquanto alguém nos dava assistência, o médico fazia injeções e outros preparavam a maca. E eles gritavam para o soldado ainda inconsciente: "Espere! Tudo vai ficar bem!" Eu perguntei se eu poderia ajudar em alguma coisa. Só me pediram pra afastar uma metralhadora do corpo. Dei uma garrafa de água pr’um soldado ferido na perna. O cara bebeu e furiosamente jogou a garrafa fora. E no meio de tudo isso eu estava fotografando.
 Tentei ser o mais discreto que pude. O soldado gravemente ferido foi colocado na maca e todo mundo se preparou pra correr. Um sargento atirou seu rifle em minhas costas pra me avisar que levasse uma mina. Aí a gente correu. Os braços do soldado estavam caídos pra fora da maca. E enquanto a gente atravessava um lamaçal, alguém gritou pra mim: "Coloque os braços dele na maca!” Peguei a mão esquerda do soldado ferido – estava quente, mas estranhamente leve, como se fosse oca - deitei sua mão em cima de seu peito, mas caiu de novo.
 Um helicóptero chegou de Kandahar apenas 10 minutos após a explosão. (As ambulâncias da nossa cidade não são tão rápidas assim!) A placa com uma cruz vermelha fez um círculo em cima da gente e pousou em um campo inundado por uma nuvem roxa de fumaça. Colocaram o soldado no helicóptero, gritaram alguma coisa para os médicos, aplicaram outra injeção e o helicóptero foi embora. A gente permaneceu no campo em um silêncio gritante. Foi aí que eu processei as coisas – fiquei com falta de ar e me senti mal. Voltamos, finalmente. Devolvi a mina e o rifle que jogaram em mim. Tinha uns meninos chorando; fui fazendo alguns cliques, tudo sem a menor pressa.
Decidiram enviar os soldados levemente feridos para uma base maior em um veículo blindado. Eu disse que iria também. Um soldado bem jovem desmaiou no caminho, e prontamente lhe aplicaram morfina. Chegamos ao hospital e ficamos esperando. Fiquei sentado perto da porta na tentativa de impedir a saída. O médico me pediu para ajudá-lo, e desajeitadamente eu segurei a mochila dele, o meu saco de dormir e uma metralhadora de um soldado ferido. Eu juntei tudo e coloquei no chão, bem pertinho da gente. Só minhas câmeras estavam comigo. A gente colocou o soldado que tinha desmaiado numa maca para levá-lo ao atendimento. Apenas os médicos se mantiveram frios naquela situação. Assim que a gente preparou a maca, uma médica disse "Vocês já podem ir embora, nós temos que trabalhar". Isso meio que acalmou a gente. 
Aquele soldado gravemente ferido sobreviveu. Teve os dedos amputados e inúmeros ferimentos na área da pélvis. Tinha 20 anos, um ano mais novo do que minha filha Alinka. 
Mais tarde fui editar as fotos e acertar contas com a assessoria de imprensa do exército. Porque se um soldado é ferido e fotografado durante o combate, já conta como invasão de privacidade, e você tem que assinar um acordo em escrito para publicar as fotos. Eles fazem bem direitinho – o soldado está vivo, então o soldado tem direitos. Em princípio, eles estão certíssimos. É que a gente vive num mundo diferente. Dois soldados que tinham saído nas minhas fotos assinaram prontamente os papéis. A equipe me agradeceu pela companhia e pelo que eu tinha feito por eles. Algumas fotos nunca serão publicadas. E eu ficaria grato se não as tivesse tirado, mas aconteceu. 
Disseram que eu tinha que ir pra casa e me mandaram para uma base maior onde estaria o helicóptero que me levaria. No meio do caminho, um comboio passou pela construção na delegacia de polícia afegã para deixar comida e água lá. Ironicamente, quando a gente chegou lá, os tiros começaram. Fotografei e tudo. Pegamos a estrada e ouvimos na rádio que um atirador do exército tinha finalmente pego quem estava atirando do outro lado. Conheço a criatura: um sargento pequeno e magro. Me disseram que ele não vê bem pelo olho esquerdo porque um fragmento de bala ficou lá, mas seu olho direito está ótimo. Capturaram o inimigo: o 11º que o atirador do exército conseguiu capturar. E aí eu fiquei aliviado. Um homem morreu, mas fiquei aliviado. Talvez a guerra seja coisa de gente nova. Vou é pra casa.“


Na foto: soldados do exército americano se consolam após saberem que um colega se ferira gravemente. Afeganistão, 12 de junho de 2012.
Observe a foto. Enquanto os soldados se abraçam, outro descansa atrás. Sua expressão corporal denuncia cansaço e frustração.

(É possível que vocês encontrem alguma incoerência ou falta de ligação entre as orações. Isso porque o texto original está em inglês e precisamos traduzi-lo. Então desde já pedimos desculpas por qualquer falha.)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Clica, foca!



No Clica, foca! de hoje tem a segunda das quatro partes da série que estreou sexta passada! A gente combinou com você de dividir o mundo do fotojornalismo em quatro pólos diferentes: Música, O Inusitado, Guerra e Esporte. De cada pólo, selecionaremos uma foto e a descobriremos pra vocês. E hoje é o dia d’O Inusitado. Dia do diferente, do estranho, do que não é de costume. Olha aí:



Parte II – O Inusitado
Por Natália Noronha

É fim do expediente no trabalho. Você está faminto. Sentindo-se solitária, a fome decide aliar-se ao trânsito numa conspiração irritantemente contrária a você. Precisa chegar ao shopping para almoçar, mas ainda tem de engolir umas várias doses de sinais vermelhos e buzinas. Haja paciência! Porque a demora é muita, você cansa e descansa no banco do carro. Põe uma musiquinha e abaixa o vidro para levar um ventinho, tudo com a tentativa de aliviar a agonia da espera. Passeando com os olhos pelo céu, você se depara com um negócio estranho.

Peraí... Aquilo... Pera. Aquilé a viga da construção, omi. Né possívum negócio desse... Aquilo em cima da viga é gente, é?

Enquanto mira a cena, boquiaberto e com as sobrancelhas enrugadas, pisca rápido e repetidamente, tentando processar o que vê:


  É gente em cima da viga sim, caro proletário. Gente que tá morta de fome que nem tu. Gente que não tem medo de altura. Gente corajosa. Mas que gente?

Essa gente corajosa e esfomeada é um grupo de operários imigrantes. Sem qualquer equipamento de segurança aparente, os funcionários almoçam tranquilamente sobre uma viga no 69º andar de um prédio em construção. O registro foi feito por Charles C. Ebbets, fotógrafo americano, em 20 de setembro de 1932 - sim, você voltou 80 anos no tempo -, durante a construção do RCA Building, no centro de Nova York.

A foto é espantosa talvez pela inesperada serenidade com que os operários lidam com a situação. São serenos a ponto de dividir um cigarro, de bater um papo e de trocar sorrisos, sem deixar escapar qualquer expressão de nervosismo ou medo: seu comportamento e expressões passam longe do esperado de pessoas a aproximados 259 metros do chão.

“Ah, mas é claro que é montagem! Tá na cara, ó!”

Se eu te dissesse que não, você acreditaria? Desde o lançamento da foto no jornal New York Herald Tribune, em 2 de outubro do mesmo ano em que foi clicada, as suspeitas de uma provável montagem foram levantadas, naturalmente apoiadas nas condições absurdas da cena. Suspeitas muito compreensíveis, inclusive. Até porque a situação arriscada em que estavam os operários mais parece resultado de uma bela sabotagem. Ken Johnston, entretanto, diz que não é sabotagem.
O diretor de fotografia histórica da agência Corbis foi convidado pelo jornal britânico The Telegraph a analisar a imagem em busca de qualquer indício de montagem. A análise foi feita no local onde a agência guarda o negativo da imagem, numa base subterrânea na Pensilvânia, onde são conservadas várias outras fotos históricas. Na análise, Johnston não encontrou nenhuma indicação de uma possível montagem e classificou o negativo como verdadeiro; ou seja, o negativo foi o mesmo usado no momento em que a foto foi tirada.

Em outra foto, alguns dos operários da obra chegam a deitar sobre a viga.


Sobre os protagonistas da cena
Era tempo de crise nos negócios e de desemprego: o país enfrentava a Grande Depressão de 29. E no desespero de quem precisa sustentar a família de qualquer maneira, muitos imigrantes aceitavam qualquer emprego, sem qualquer exigência de segurança – o que é constatado na falta de equipamento, de cordas de aço ou de cintos.
Dá pra gente se aprofundar mais nessa história. Eles a gente já sabe quem são. Mas e quem eles foram no momento da foto, a gente sabe? O sentido mais literal da expressão “ter o mundo aos seus pés” é reproduzido de forma muito interessante na imagem. Interessante porque todo o movimento da cidade (e todo o império das indústrias americanas, dos grandes prédios e grandes empresários), sob onde e quem sempre estiveram os pequenos operários, agora movimenta-se debaixo dos pés de quem a construiu. Quem sabe subiu às suas cabeças uma sensação de poder, de tudo-posso - até porque não havia mais ninguém acima deles.

Sobre a veracidade da foto
Numa reportagem feita pelo jornal britânico Independent, o historiador Ken Johnston revelou que a cena foi propositalmente forjada para um trabalho de divulgação do Complexo Rockfeller Center e descartou a teoria de que aquele era um momento cotidiano e, portanto, espontâneo. O cenário e os operários são reais e não houve montagem, mas os protagonistas da fotografia foram orientados a aparentar tranquilidade: tudo foi um esquema para divulgar o complexo de edifícios. Ainda segundo Johnston, o autor da foto é desconhecido e não Charles C. Ebbets como a maioria pensa. A teoria é a de que vários fotógrafos presenciaram o momento e participaram da produção do clique, o que deixa a dúvida sobre quem apertou o botão da câmera.

Viu que por trás de cada foto existe uma história? A gente percebe que uma crise econômica pode ser um fator influenciador do momento do clique, que a espontaneidade de uma cena pode ser apenas ilusória e que o ganhador dos créditos da imagem pode não ser quem fez o clique.

(E se sair do trabalho e no caminho até o almoço vir uma cena dessa, você vai estar preparado. Aí depois tira foto e manda pra gente.)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Clica, foca!


O Clica, Foca! de hoje e das próximas três sextas-feiras se dividirá em quatro temáticas: Música, O Inusitado, Guerra e Esporte. Porque hoje se fotografa de tudo, se fotografa no céu e debaixo do mar. Se fotografa choros e risos e prédios a desabar. Nossa, que brega! Me largo agora das minhas duvidosas habilidades poéticas e falo sério. O fotojornalismo é variado demais. Há diversos objetos de fotografia e fotógrafos especializados para cada objeto. Seguindo esse pensamento, a gente vai te trazer as histórias que se esconderam por trás de músicos, por trás de situações inusitadas, por trás de uma guerra e por trás de um acontecimento do esporte. Divididozinho assim em quatro segmentos. A primeira parte dessa série, Música, conta os bastidores de uma foto bem famosa. Eu e as divindades fotográficas duvidamos de que você a desconheça.

Parte I - Música




Essa foto foi parodiada pelos Simpsons, foi capa de CD e leiloada por 16 mil libras em um leilão que durou menos de um minuto. Iain Macmillan, fotógrafo escocês, foi o artista da obra. No bairro londrino St. John’s Wood, em 8 de agosto de 1969, o fotógrafo aprontou uma escada para apoio e, a três metros do chão, fotografou os Beatles para o que seria a capa do álbum Abbey Road. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr protagonizaram a mais famosa travessia-de-rua enquanto um policial parava o trânsito. Com os 10 minutos que foram concedidos a Macmillan, o fotógrafo fez seis cliques dos Beatles andando nas duas direções da faixa de pedestres.

Na manhã de 22 de maio do ano passado, a foto que mostra os Beatles andando na direção contrária a que estampa o álbum Abbey Road (abaixo) foi leiloada por 16 mil libras esterlinas - o que equivale a R$ 51 mil – em Londres.


“Ah, Natália, mas isso não é fotojornalismo! Isso não é jornalístico!”

As novas definições que vieram com o novo nome da coluna abraçam, além de qualquer coisa, a definição de contadora de histórias. Acho que jornalismo é sobre isso. Sobre contar histórias. E no fotojornalismo se conta um monte delas - elas apenas são traduzidas em fotografia.

E aí? Gostou de saber a história dessa famosa foto dos Beatles?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nós também erramos!

Foram diversas tentativas, crises de risos e sirenes no meio do vídeo. Teve gente que pisou no pé do enfermo, outra que não sabia mexer na câmera e mais um que trocou as palavras. Esse é o nosso making off. Demorou, mas chegou!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Clica, foca!

Sobre crises e rugas que falam

Por Natália Noronha


A crise dos anos 30 deixou muita gente desamparada. O colapso econômico dos EUA logo se fez colapso mundial, visto que os americanos eram os principais financiadores dos europeus. A queda das ações e a consequente falência das empresas deixaram pais desempregados e famílias sem rumo. Mas falo de um sem-rumo bem literal, bem real; um sem-rumo de ficar ao pé da estrada, numa barraca, com sete filhos e incontáveis desesperanças... Sem destino e com uma ruma de meninos.
A mãe, Florence Owens Thompson, e sua família – a ruma de meninos e o marido - viajavam pelas estradas da Califórnia na esperança de encontrar emprego. No meio do caminho, duas peças do carro quebraram, e Jim, marido de Florence, e mais dois dos filhos do casal foram a uma cidade próxima em busca de conserto. Florence e as crianças, enquanto esperavam, providenciaram uma barraquinha e montaram uma espécie de acampamento temporário.
A cena havia sido montada para Dorothea Lange. A fotógrafa americana, durante um mês, viajou por todo o estado da Califórnia a fim de documentar o trabalho agrícola de imigrantes. Ao localizar Florence e as crianças sob o mini-acampamento, fez uma série de fotos da cena. Com as fotos, Dorothea conseguiu a projeção da crise no semblante cansado de Florence, assim como a tradução da desordem em que se encontrava o país na bagunça da barraquinha. Olha aí:








Em 1960, Lange deu o seguinte depoimento sobre o episódio:

“Eu vi a mãe desesperada e faminta e me aproximei dela, como se fôssemos ímãs. Não lembro como expliquei minha presença ou a minha câmera para ela, mas lembro de que ela não me perguntou nada. […] Ela pareceu saber que minhas fotos poderiam ajudá-la, então ela me ajudou. Havia um pouco de igualdade ali.”

Você acha que a proximidade entre Dorothea e Florence foi suficiente para traduzir a crise da época? Não falo de distância física, mas de "distância fotográfica". O quão bom foi o clique dirá o quão próximos estão o fotógrafo e o fotografado. Quanto mais a fotografia falar, mas próximos estarão. E aí?

sábado, 29 de dezembro de 2012

Clica, foca!

Retrospectiva do que não foi visto - Parte II


Por Natália Noronha

Imagino que hoje a preferência das tevês brasileiras tenha sido pela Rede Globo: aquela velha retrospectiva do ano que se finda, muito bem vestida com uma trilha sonora de filme de ação, acompanhante ideal para o conjunto de imagens marcantes e inesquecíveis. Ou esquecíveis? Dizem por aí que brasileiro tem memória curta. Brasileiro também é um tantinho acomodado, senta no sofá e, servido de uma pipoquinha Yoki e uma Coca bem gelada, deixa que a tevê lhe faça o agrado de relembrá-lo do que houve no ano.
E hoje o Fala, foca! também te traz uma retrospectiva. Mas é uma retrospectiva diferente. Do que você não viu. Na segunda e última parte da Retrospectiva do que não foi visto, a gente te lembra do que você não sabe. Ou te faz conhecer o que você desconhece. O propósito é diferente assim talvez pela vontade de te trazer novidades, porque o que teve de Avenida Brasil, Olimpíadas de Londres, crises, confrontos e (re)eleições foi muito e você certamente já viu. Aqui se quer revelar Carminhas das quais ninguém falou, heróis que nenhuma rede noticiou e crises e confrontos cujas fumaças e bombardeios ninguém viu nem ouviu.
Servido de uma pipoca Yoki, Kero-Kero, Bokus ou a que quiser, você é agora convidado a dar um passeio pelo desconhecido de 2012.

(Se não viu a primeira parte dessa série, clica aqui.)

12 de junho

Foto: China Daily. Num hospital de Hangzhou, província chinesa, companheiros de trabalho, bombeiro e médico trabalham juntos na tentativa de cortar barras de aço que foram perfuradas no corpo de um trabalhador. As sete barras de aço acidentalmente quebraram e pularam para fora de uma máquina, perfurando o corpo do homem enquanto fazia seu trabalho na construção de uma ponte. O processo de retirada das barras envolveu o esfriamento do material no intuito de comprimi-lo para que depois fosse extraído do corpo do trabalhador. A cirurgia durou mais de cinco horas e foi um sucesso.


19 de agosto

Foto: Mukesh Gupta. Esse pequeno templo budista fica totalmente ilhado e parcialmente submerso após a inundação do rio Tawi devido às fortes chuvas, em Jammu, Índia.

13 de setembro

Foto: Jorge Dan Lopez. Em Tática, cidade próxima à Cidade da Guatemala, mulher atinge homem com pedaço de pau após ser acusado de roubo com mais três homens. A comunidade local deteu e amarrou os quatro suspeitos do roubo que resultou de um massacre numa escola. O homem, que matou a facadas duas crianças dentro de uma sala de aula, foi linchado e queimado vivo pelos moradores, segundo mídia local.

12 de julho

Foto: Susana Vera. Em Pamplona, Espanha, fotógrafo da Reuters, agência de notícias londrina, é atacado por um touro enquanto fazia alguns cliques do festival de San Fermin, em que há a típica corrida de touros. Extraburu sofreu alguns arranhões no cotovelo mas continuou a fotografar.

6 de setembro

Foto: John Kolesidis. Em Atenas, policial finge se enforcar em frente ao parlamento durante um comício. Cerca de 4.000 policiais, guarda-costeira e bombeiros gregos protestaram encenando suicídios. As mortes eram simuladas em forcas montadas em frente ao ministério da finança e do parlamento para simbolizar os cortes orçamentais.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Clica, foca!


"'Clica, foca!'? O que é isso?"

           O campo do fotojornalismo é rico e por isso há muito o que se explorar. Por trás das fotos há histórias e por trás dessas há pessoas; por trás das câmeras há pessoas e por trás dessas há mais histórias. Seguindo esse pensamento, o Fala, foca! decidiu abranger a coluna, largando-se de resumi-la a apenas uma fotografia semanal. Optamos pela mudança do nome da coluna e a batizamos como "Clica, foca!", na pretensão de não mais centralizá-la a "Foto da semana". Agora, nossa intenção é desmascarar o que há de desconhecido no fotojornalismo e utilizar a forma de fotojornalismo mais conhecida para revelar o desconhecido do mundo - trazer os fatos mais escondidos e os fotógrafos menos falados. A ideia é inovar nas postagens, assim como foi tentado em "As 6 fotos que falam mais que eu" e assim como será tentado na postagem de hoje. Falando em postagem de hoje, olha ela aí:

Retrospectiva do que não foi visto


Por Natália Noronha

Concorda comigo que há uma espécie de cronograma-de-fim-de-ano? Parece que a mídia, as divindades, a humanidade, sei lá, alguém conseguiu criar um pacote de tradições típicas do fim de ano. As retrospectivas são uma delas. Estampam páginas iniciais de websites e ganham programas só para elas nos grandes canais de tevê.
Todo dezembro várias e tantas memórias se reacendem na cabeça da gente diante de um conjunto de imagens pretensiosamente dispostas numa ordem mensal. Então você lembra daquele acontecido de janeiro, daquele fato de fevereiro, daquele desastre de março que tomou grande proporção na mídia mas você esqueceu. Retrospectiva serve pra isso. Pra te lembrar do que você sabe.
A retrospectiva da coluna de fotojornalismo do Fala, foca! vai ser um pouco diferente. A gente quer trazer o que você não sabe. Fatos que, embora tenham ganhado alguma importância em algum meio de algum país, você provavelmente desconheça. Porque, confessemos, fotografias das Olimpíadas de Londres você certamente já viu, das eleições políticas no Brasil e da reeleição do Obama também.
Hoje e na próxima sexta-feira traremos fatos de 2012 descritos em foto, e a pretensão é revelar, sem uma disposição mensal, porções de 2012 (e do mundo) que você não conhece. Num primeiro olhar, os fatos são tímidos se comparados ao "padrão de fatos" usualmente relatados numa retrospectiva. Mas fato é fato, e cada um descrito aqui certamente  foi importante de alguma maneira. Vamos saber o que aconteceu por aí em 2012? Boa viagem!


11 de maio 
Foto: Cheryl Ravelo. Moradores de Manila Bay, nas Filipinas, remam um barco improvisado enquanto a pequena comunidade em que moram é consumida pelo fogo. O incêndio de causa desconhecida resultou em pelo menos mil casas destruídas e mais de 5.000 famílias desabrigadas, segundo mídia local.

30 de março
Foto: Ammar Awad. Policiais israelenses detêm um manifestante palestino durante confrontos no "Land Day", celebração palestina que acontece anualmente. As forças de segurança israelenses dispararam balas de borracha, gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral para dispersar grupos palestinos. O que era para ser um evento comemorativo se tornou uma festividade violenta.


16 de junho 
Foto: Baz Ratner. Um imigrante sudanês dorme sob um escorrego enquanto uma menina israelense brinca com a mãe, no parque de Levinsky, no sul de Tel Aviv, Israel. Esse parque é uma espécie de moradia para muitos imigrantes ilegais, que se dividem entre pessoas que procuram emprego e refugiados. Cerca de 60.000 africanos cruzaram a fronteira de Israel com o Egito nos últimos anos. 
 9 de novembro

Foto: Stringer. Sírios correm sobre arame farpado na tentativa de atravessar ilegalmente a fronteira entre a Síria e a Turquia, situada entre as cidades Ras al-Ain e Ceylanpinar. Muitas vezes os imigrantes ilegais preferem cruzar as fronteiras mais próximas a andar quilômetros. Utilizando essa estratégia, eles conseguem alcançar casas de familiares em vez de ficarem em campos de refugiados. 

20 de novembro

Foto: Mohammed Salem. Na cidade de Gaza, ao mesmo tempo em que dirigem motocicletas, palestinos armados arrastam o corpo de um homem suspeito de trabalhar para Israel. Os palestinos desse grupo ainda mataram seis supostos colaboradores, apanhados em flagrante, na Faixa de Gaza.