Sobre crises e rugas que falam
Por Natália Noronha
A crise dos anos 30 deixou muita gente desamparada. O
colapso econômico dos EUA logo se fez colapso mundial, visto que os americanos
eram os principais financiadores dos europeus. A queda das ações e a
consequente falência das empresas deixaram pais desempregados e famílias sem
rumo. Mas falo de um sem-rumo bem literal, bem real; um sem-rumo de ficar ao pé
da estrada, numa barraca, com sete filhos e incontáveis desesperanças... Sem
destino e com uma ruma de meninos.
A mãe, Florence Owens Thompson, e sua família – a
ruma de meninos e o marido - viajavam pelas estradas da Califórnia na esperança
de encontrar emprego. No meio do caminho, duas peças do carro quebraram, e Jim,
marido de Florence, e mais dois dos filhos do casal foram a uma cidade próxima
em busca de conserto. Florence e as crianças, enquanto esperavam,
providenciaram uma barraquinha e montaram uma espécie de acampamento
temporário.
A cena havia sido montada para Dorothea Lange. A
fotógrafa americana, durante um mês, viajou por todo o estado da Califórnia a
fim de documentar o trabalho agrícola de imigrantes. Ao localizar Florence e as
crianças sob o mini-acampamento, fez uma série de fotos da cena. Com as fotos, Dorothea
conseguiu a projeção da crise no semblante cansado de Florence, assim como a tradução da desordem em que se encontrava o país na bagunça da barraquinha. Olha aí:
Em 1960, Lange deu o seguinte depoimento sobre o episódio:
“Eu vi a mãe desesperada e faminta e me aproximei dela, como se fôssemos ímãs. Não lembro como expliquei minha presença ou a minha câmera para ela, mas lembro de que ela não me perguntou nada. […] Ela pareceu saber que minhas fotos poderiam ajudá-la, então ela me ajudou. Havia um pouco de igualdade ali.”
Você acha que a proximidade entre Dorothea e Florence foi suficiente para traduzir a crise da época? Não falo de distância física, mas de "distância fotográfica". O quão bom foi o clique dirá o quão próximos estão o fotógrafo e o fotografado. Quanto mais a fotografia falar, mas próximos estarão. E aí?
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